31 de março de 2012

NOVIDADES - LIVROS

Policiários de Março: Crime Na Escola - Um policial a duas mãos
De Daniel Sampaio e Gonçalo Sampaio - Editorial Caminho


Sinopse (Editora)
O Colégio Um por Todos não é muito diferente da cidade cinzenta que o rodeia: antigo, com más instalações, uma escola do 3.º ciclo e secundário. Na turma mais conhecida, o 7.º B, há três amigos inseparáveis e muito populares: o Rafael, o Simão e o Manel. Na escola acumulam-se os acontecimentos estranhos e cria-se um clima de tensão, que culmina na descoberta de um crime. Quem será o culpado? Com inteligência e coragem, os amigos vão deslindar o mistério. Uma movimentada história policial, escrita a duas mãos por autores de gerações diferentes: avô e neto.




O Espião Improvável

De Daniel Silva, Bertrand Editores


Sinopse (Editora)

“Em tempos de Guerra”, escreveu Winston Churchill, “a verdade é tão preciosa que deveria sempre ser acompanhada por um séquito de mentiras.” No caso das operações de contra-inteligência britânicas, isto implicava encontrar um agente o mais improvável possível: um professor de História chamado Alfred Vicary, escolhido pessoalmente por Churchill para revelar um traidor extremamente perigoso, mas desconhecido. Contudo, os nazis também escolheram um agente improvável: Catherine Blake, a bela viúva de um herói de guerra, voluntária num hospital e espia nazi sob as ordens directas de Hitler para desvendar os planos dos Aliados para o Dia D…

Ladrão de Cadáveres
De Patrícia Melo - Editora Quetzal

Sinopse (Editora)
O Pantanal - imenso, selvagem. Foi aqui, perto da fronteira da Bolívia, que o narrador desta história se refugiou, depois de implicado no assassínio de uma mulher na mega cidade de São Paulo. E foi aqui que só, nas margens do rio Paraguai, num domingo de sol, presenciou a queda fatal de um pequeno avião - o acontecimento que irreversivelmente lhe mudará a vida. Na mochila do piloto - único filho de uma família rica e poderosa - encontra um quilo de cocaína. Dias depois, o local do acidente é identificado, e constata-se o desaparecimento do corpo do piloto - e nessa altura um esquema macabro começa a ser urdido. O Ladrão de Cadáveres, o mais recente livro de Patrícia Melo, é uma mistura explosiva de temor, ganância, conspiração, sexo, corrupção, traição dos vivos e profanação dos mortos. Um romance de leitura compulsiva.





Não Sou Um Serial Killer
De Dan Wells- Editora Contraponto

Sinopse (Editora)
John Wayne Cleaver é um rapaz potencialmente perigoso – muito perigoso. E passou toda a sua vida a tentar não cumprir o seu potencial…
É bem-comportado, calado, tímido e reservado, mas incapaz de sentir empatia e de compreender as pessoas que o rodeiam. Prefere conviver com os mortos; o seu trabalho (e o seu passatempo favorito) é embalsamar cadáveres na casa mortuária que pertence à sua família. Além disso, partilha o nome com um famoso serial killer e tem uma obsessão quase incontrolável por psicopatas e assassinos em série. Sob estas circunstâncias, parece que o seu destino está traçado…
Contudo, John Wayne Cleaver é plenamente consciente das suas invulgares características, e quer a todo o custo impedir-se a si mesmo de matar. Para tal, criou um conjunto de regras muito precisas: tenta cultivar apenas pensamentos positivos pelas pessoas que o rodeiam (até pelo bully do liceu), evita criar laços ou interessar-se por elas (tem apenas um amigo da sua idade) e, sobretudo, tenta a todo o custo manter-se afastado do fogo (que gosta de atear), dos animais (que gosta de dissecar) e de locais e vítimas de crimes.
As suas regras vão ser postas à prova quando é encontrado um corpo terrivelmente mutilado – e depois um segundo, e um terceiro. Será que na sua pacata vila existe uma criatura ainda mais perigosa do que John Wayne Cleaver?



Testemunha Mortal




De J.D. Robb, Editora Chá das Cinco

Sinopse (Editora)
Na noite em que a tenente Eve Dallas e o seu marido Roarke assistem à estreia de uma peça de teatro baseada numa história de Agatha Christie, testemunham a morte ao vivo de Richard Draco, o actor principal, assassinado por uma faca real em pleno palco. Eve rapidamente se vê a assumir o clássico papel do detective que tem de descobrir o autor do crime. Mas todos os suspeitos tinham uma razão para desprezar a vítima, um misógino que abusava de mulheres, incluindo uma que sabia ser sua filha. O conflito emocional de Eve torna-se mais intenso à medida que avança no caso pois o seu próprio passado volta a assombrá-la. Só Roarke poderá protegê-la e tentar curar Eve do negrume desse passado. Se falhar, talvez não haja um futuro…




Iceberg


de Clive Cussler, Editora Saída de Emergência

Sinopse (Editora)

O gigantesco iceberg no Atlântico Norte era um túmulo flutuante. A colossal massa de gelo encerrava um navio no seu interior; selado de tal forma que nem o mastro era visível. Uma patrulha da guarda costeira percebeu que algo se escondia no seu interior. Deixaram marcas para enviar uma equipa de investigação, mas alguém apagou a sinalização para que este local não fosse encontrado novamente. Duas figuras foram avistadas no local. Eis um mistério dos mares comparável ao Triângulo das Bermudas. Mas, para o Major Dirk Pitt, o maior aventureiro da Agência, esta foi a primeira pista de uma sequência de acontecimentos fantásticos que o levarão muito perto e demasiadas vezes à beira da morte. Que sinistra e bizarra conspiração se desenrola nas inóspitas tundras da Islândia? Que segredo macabro se esconde debaixo de um Iceberg?

CALEIDOSCÓPIO 91

EFEMÉRIDES – Dia 31 de Março
Lionel Davidson
(1922 - 2009)
Lionel Davidson nasce em Hull, Yorkshire, Inglaterra. Jornalista, repórter, editor e escritor conceituado. Publica o primeiro livro The Night of Wenceslas em 1960 e com ele ganha o Gold Dagger, o prestigiado prémio da britânica Crime Writers Association para o melhor romance de espionagem. No total o autor escreve 6 livros policiários, a maioria com elemento forte, uma descrição precisa dos locais onde decorre a acção — Praga, Alemanha Oriental, Tibete, Israel — consequência da profissão de repórter internacional do autor. Volta a ganhar o Gold Dagger em 1966 com A Long Way to Shiloh e em1978 com The Chelsea Murders. Escreve também 4 livros de aventura/suspense para jovens com o pseudónimo David Line.


TEMA — PROBLEMÍSTICA POLICIÁRIA — A QUESTÃO DO “COMO?”
A clássica apresentação de problemas, por mais engenhosas que sejam na forma, termina, com pouca mutabilidade, pelo clássico desafio: Quem? Porquê?
No quem pretende-se um elemento identificador, em geral do suspeito ou criminoso; no porquê, a justificação da afirmativa ou negativa proposta para o quem. A narração, em sequência, havia já informado como foi cometido o crime ou, noutros casos, descrito a sua execução.
Não é diferente, no seu conjunto, do sistema tradicional na novela ou romance de tema policiário.
Um outro elemento pode, em determinadas condições, entrar em causa: o como?
Conhecemos o quem, o porquê, ignoramos o como.
Para esta hipótese, o puzzle (enigma) contém crime, criminoso, ou só um deles, motivo, oportunidade, etc. Carece de uma única peça: como foi praticado. Como encaixar essa peça no conjunto geral? Como pode a vítima apresentar um buraco de bala se não existe, nem poderia existir, arma? Como passar, invisível, na presença de atentos observadores?
Os exemplos da necessidade de encontrar o como? são múltiplas, mesmo na vida real não faltam situações que podem pôr à prova os mais apetrechados detectives.
São imensos os casos da vida real que nos podem pôr a questão do como?.
Não resistimos, antes de transportarmos a acção para a problemística, em citar um dos grandes mistérios do como?

Certo dia, o professor de uma universidade de Calcutá, descobriu escandalizado que alguém, constante e sistematicamente, fornecia aos alunos, com antecipação, as perguntas dos exames (caso não inédito em Portugal).Uma cuidadosa investigação não conseguiu desmascarar o culpado.
Providências sem conta foram tomadas para impedir a repetição deste facto, mas nenhuma delas obteve sucesso. Finalmente um prelo manual foi instalado numa sala cuidadosamente vigiada e a impressão dos questionários das provas foi confiada a um único impressor, de carácter e reputação inatacáveis.
O impressor era auxiliado por uni jovem nativo, vestido apenas com uma tanga e um turbante, que era despido e revistado quando deixava o recinto.
Apesar de todas essas precauções, os questionários continuavam a ser divulgados com toda a regularidade.
Por um processo de eliminação chegou-se a conclusão de que o ladrão só poderia ser o ajudante, e uma constante vigilância foi organizada em torno dele.
A questão era como?
Como conseguiria o ajudante; apesar de despido e revistado, sair do compartimento fechado e extremamente guardado com o questionário subtraído?
Como? No entanto, fazia-o facilmente.
Pensou? Descobriu?
Vejamos:
Depois da composição do exame o ajudante, aproveitando-se de uma momentânea ausência do impressor, tirava a tanga e sentava-se sobre a página de tipos de metal. A impressão assim obtida não era visível na sua pele escura e, mais tarde, quando chegava a casa, bastava sentar-se sobre uma folha de papel branco para ter as questões reproduzidas numa cópia quase perfeita.
Copiava essa cópia, lida por meio de um espelho por estar invertida, que a seguir policopiava e vendia entre os alunos...

TEMA — ENIGMA PRÁTICO — O TESOURO ESCONDIDO
De Austin Ripley (EUA)
Trabalhando secretamente num caso de audacioso roubo de jóias e dinheiro, Fordney, disfarçado de escritor excêntrico, alugou um chalé na pequena aldeia de Mumset, até onde o levava uma pista que aí desaparecia.
No bar Phoenix o criminalista meteu conversa com um homenzarrão de nome Abner Wren, cujas fanfarronadas o intrigavam. Fingindo-se embriagado, pagou várias bebidas a Wren, e veio a saber que este era fazendeiro numa região próxima. Seguiu-se um momento de emoção. Piscando os olhos, o camponês, já inteiramente tonto, falou num mapa secreto, que trazia no bolso, num esperto parente da cidade e num tesouro enterrado. Disse que precisava apressar-se a pôr mãos à obra. Habilmente, Fordney revistou-lhe os bolsos, tirou o mapa, anotou os seus pormenores essenciais e tornou a colocá-lo no lugar.
Não havia dúvida de que indicava o esconderijo do produto do roubo que ele andava a investigar. Mas, que fazer? O mapa mostrava o tesouro enterrado entre duas grandes pedras, distantes dez pés uma da outra, situadas num campo a cinco milhas da aldeia. Não havia tempo para pedir auxílio. Ele não possuía instrumentos a não ser uma faca. Além disso, era seu intuito prender o cérebro da quadrilha: Reggie Arden, Afinal, resolveu o problema! Mas precisava chegar ao local antes de Wren.
Três horas mais tarde, no chalé de Fordney:
Xerife Wedgeon — Quer dizer, Fordney, que viu Wren cavar quinze pés no local indicado no mapa, depois em volta do buraco, mas que ele não encontrou nada? Você não cavou em lugar algum e, no entanto, sabe que o tesouro ainda está no mesmo sítio…
Wedgeon estava furibundo.
Fordney — Exactamente. O dinheiro e as jóias estão no lugar onde foram enterrados originariamente. Venha, xerife. Vamos buscá-los, e é bem possível que deitemos a mão a Ardell no local, tão boquiaberto como o senhor…

Pergunta-se: Qual o ardil que Fordney empregou para vencer Wren e Ardell? Qual a solução? Puxe pela cabeça, o caso poderia dar-se consigo e com algo que tivesse escondido e encontrar-se na situação de Fordney. Que teria feito? Como resolveria?
A resolução depende do seu próprio engenho

30 de março de 2012

CALEIDOSCÓPIO 90

EFEMÉRIDES – Dia 30 de Março
Edgar P. Jacobs
(1904 – 1987)
Edgard Félix Pierre Jacobs nasce em Bruxelas, Bélgica. Desenhador, argumentista, e escritor, tem duas paixões: ópera e banda desenhada. Depois de uma carreira de quase 20 anos, como barítono, abandona o palco em 1940 e começa por ilustrar contos. Em 1943 é desafiado a criar uma série na linha de Flash Gordon (proibida na Bélgica pelas forças de ocupação alemãs) e publica Rayon U (O Raio U), originariamente em tiras simples a preto e branco e caixas de texto, mais tarde (1974) reformatada pelo autor com utilização cor e inserção de balões — hoje um álbum clássico da banda desenhada de ficção científica. Ainda em 1943 conhece Hergé, o criador de Tintim, e iniciam uma colaboração e amizade para sempre. Edgar P. Jacobs é responsável pelo novo aspecto cromático das aventuras de Tintin e também pela inclusão de alguns temas, como a ópera e a figura de Bianca Castafiore. Em 1946 é lançado o Journal de Tintin e Edgar P. Jacobs, colaborador desde o inicio, cria Blake & Mortimer, uma série que junta aventura, espionagem e ficção científica. O autor escreve e desenha os primeiros oito títulos, editados entre 1947 e 1970: O Segredo do Espadão (3 volumes), O Mistério da Grande Pirâmide (2 volumes), A Marca Amarela, O Enigma da Atlântida, S.O.S. Meteoros, A Armadilha Diabólica, O Caso do Colar, As Três Fórmulas do Professor Sato (2 volumes; o 3º é de Bob de Moor).



TEMA — MEDICINA FORENSE
Sir Sidney Smith professor da Universidade de Edimburgo expõe factos sobre a sua experiência.

O sucesso ou insucesso de uma investigação depende, muitas vezes, das observações iniciais e dos actos dos oficiais da polícia que, primeiramente, apareceram no local do crime. Eles são também responsáveis pela protecção contra o dano de tudo quanto possa ser de interesse útil para o perito médico-legal. Para ele, um caso começa, muitas vezes, com o pedido para ver um cadáver. A polícia pode não saber quem é o morto e, portanto, pretende saber qualquer pormenor que contribua para a sua identificação. Quererá conhecer a causa e o modo da morte se foi devida a causas naturais ou a violência; e, neste último caso, se se trata de acidente, de suicídio ou de homicídio. Como morreu a pessoa? Quando ocorreu a sua morte? Isto pode ser muito importante, se se tratar de homicídio, e um suspeito tiver um álibi. O corpo pode ter sido deslocado após a morte? Porque aconteceu? Geralmente, apenas esta última pergunta. Ora o motivo está fora do alcance profissional do perito médico-legal — mas, em certos casos, tais como assassínio, após violação também pode explicá-la.
Para achar a resposta para todas estas perguntas, têm de ser descobertos vários factos e relacionados entre si: o grau de arrefecimento do corpo, o adiantamento da rigidez (rigor mortis), a descoloração post-mortem (hypostasis), o estado dos alimentos no estômago e intestinos, o estado e composição do sangue, e muitos outros pormenores deste género. Apenas a hypostasis, embora se tenha escrito menos a respeito dela do que do rigor mortis, pode fornecer uma variedade de informação interessante.
Esta descoloração post-mortem ou lividez cadavérica é causada pela passagem do sangue, sob o efeito da gravidade, para os vasos mais baixos do corpo, fenómeno que se começa a processar logo que o coração deixa de bater. Os diminutos capilares distendem-se com sangue e manchas lívidas aparecem à superfície do corpo. A descoloração começa pouco depois da morte, a princípio em pequenas manchas que gradualmente se vão fundindo em grandes áreas. É muito distinta, passadas doze horas.
Normalmente a cor é, a princípio, um cor-de-rosa azulado e depois arroxeado; mas, tratando-se de um envenenamento por monóxido de carbono é cor-de-rosa; por ácido prússico, vermelho vivo; por certos (outros venenos, cor-de-chocolate; e tratando-se de morte por queimaduras ou frio pode ser nitidamente vermelho. É bem patente em casos de asfixia, mas menos evidente no caso de morte por hemorragia. Se o corpo for deslocado antes do sangue coagular as manchas podem mudar de posição, mas quando se verifica a coagulação dos capilares as manchas fixam-se definitivamente: diz-se então que se fixaram os livores. Isto ocorre geralmente em cerca de seis horas; mas, no. caso de morte por sufocação ou por estrangulamento pode demorar muito mais horas.
A distribuição das manchas depende da posição do corpo. Se estiver estendido de costas, estas ficarão completamente descoloridas excepto nas partes em que se apoia directamente — porque qualquer pressão, por ligeira que seja, impede que os capilares se encham e tais zonas não ficam descoloridas. A posição de qualquer faixa apertada, como um colarinho ou liga, ou rugas duma camisa, ficará assinalada pela ausência de descoloração. Tais zonas lívidas são por vezes confundidas com marcas resultantes de pancadas ou estrangulamento. As manchas post-mortem não devem ser confundidas com contusões, com que muitas vezes se assemelham e, em casos duvidosos, é necessário retirar algumas secções para submetê-las a exame microscópico.
A descoloração é apenas um dos sinais importantes do estado post-mortem, através dos quais é possível descobrir uma informação vital acerca da morte. Por vezes, tais dados médicos vêm simplesmente confirmar outros factos e deduções já concluídos pela polícia.


TEMA — A POESIA E O CRIME — PROCURA DE ISABEL
por Natércia Leite

Onde está Isabel?
Estará ela perdida?
Houve alguém que a levou
contra vontade sua?
As janelas fechadas
as portas chaveadas…
Seu perfume que paira
ainda ali na rua onde
um dia morou

Cheia de cor, de vida
Uma graça de Deus.

Tanta pergunta, tanta!
Quando as respostas, sei! …
Onde está Isabel?
Num ermo dum pinhal
sob o mato escondida!
Tenho um nó na garganta
na cabeça, um tropel
Quanta amargura, quanta!
Fui eu. Eu, que a matei!

Quando a senti perdida.
Quando me disse adeus.

29 de março de 2012

CALEIDOSCÓPIO 89

EFEMÉRIDES – Dia 29 de Março
Jo Nesbø
(1960)
Nasce em Oslo, Noruega. Futebolista, músico e vocalista de uma banda rock, jornalista e economista inicia-se na carreira de escritor em 1997. Escreve também livros infantis e tem publicados cerca de uma dúzia romances policiários. Cria o personagem Harry Hole um detective brilhante que recebeu treino do FBI e reside em Oslo. Está traduzido em 40 línguas e na Noruega os seus livros vendem meio milhão de cópias. O autor tem uma longa lista de prémios e nomeações; o destaque vai para The Glass Key Award 1998, prémio sueco para o melhor romance nórdico de crime com e é nomeado em 2010 para o Edgar Award para melhor romance com Nemesis. Em Portugal estão editados o 3º, 4º e 5º livros da série Harry Hole, o 1º e o 2º Flaggermusmannen/The Bat e Kakerlakkene/The Cockroaches ainda não foram publicados.
1 – O Pássaro De Peito Vermelho (2009), Editora Dom Quixote; Título Original: Rødstrupe (2000), Título da edição inglesa: The Redbreast (2006)
2 - Vingança A Sangue-Frio (2010), Colecção Ficção Policial, Editora Livros d'Hoje; Título Original: Sorgenfri (2002), Título da edição inglesa: Nemesis (2008)
3 – A Estrela do Diabo (2011), Editora Dom Quixote; Título Original: Marekors (2003), Título da edição inglesa: The Devil's Star (2005)






TEMA — RECORDAR O PASSADO — NEM O DIABO RESISTE…
No final dos anos setenta do anterior século passado exercia funções de Agente do Ministério Público nos Tribunais de 1ª Instância instalados na Rua Braamcamp em Lisboa, no caminho do escritório de Amigo de longa data, Artur Varatojo em Campo de Ourique. Telefonava-me, quase sempre a uma quarta-feira para almoçarmos “Contas do Porto” porque o Varatojo — jeito que lhe ficou da mocidade cheia de dificuldades, não largava moedas em vão. O “poiso” habitual do repasto era um restaurante da Rua da Conceição*, pouco antes da Travessa da Glória, a do elevador.
Sentados, consultada a lista e discutido o prato, entravamos na cavaqueira — interrompida de quando em quando, por uma pergunta subtil, invariavelmente sobre imposto sucessório, que ele considerava-me um “ás” ao lado de uma carta branca; aliás tinha a gentileza de nunca abordar as minhas funções — retomava com arte de mestre, que era, a conversa interrompida. Era um “orador” admirável, um conversador de excepção, entusiasta e encantador, acreditem.
A propósito de Alcobaça, melhor, dos pêssegos expostos na vitrina com a indicação da origem, contou, com a graça que lhe era inerente, uma crónica que acabara de enviar para a Capital que, de ordinário eu não lia, porquanto Victor Dimas, jornalista do Expresso na rua adjacente ao tribunal, me enviava todos os dias um Diário Popular. Tentarei reproduzir o caso, tal como me lembro trinta e tal anos depois.
Ali para oeste, numa aldeola do concelho de Alcobaça, ia um rebuliço tremendo com um menor de 13/14anos possuído pelo demónio há várias semanas. Dominado por uma força incomum, ninguém o podia segurar. Batia, clamava, saltava, e, com velocidade diabólica rolava pelo chão, rasgando as roupas sujas… pedras, de origem desconhecida, caíam frequentemente no telhado e as janelas ostentavam as marcas dessas armas voadoras. Os factos eram do domínio dos vizinhos que suportavam receosos que o diabo lhes pedisse contas dos prejuízos nas casas e quintais anexos, A intervenção do pároco, aparamentado, água benta e cruz, pronto a exorcizar a “perversa criatura”, rendeu-se incapaz. Um certo espírita de Lisboa fez uma peregrinação, mulheres de virtude, espíritas, nada resultou. O rapaz, de olhos esbugalhados, assusta e a tudo resistiu.
O pai, internado no Hospital, não assistia ao domínio do “bode chifrudo” sobre o filho, a avó materna, de avançada idade refugiava-se de rosário nas mãos entre as paredes do quarto, morrendo um pouco todos os dias. A mãe, cansada, consumida pelo mau rumo da vida, sentiu-se um dia eufórica de coragem. Mal o rapaz começou a rasgar-se, saltou sobre ele com a força da determinação, pegou-lhe pela orelha e não mais a largou. De nada valeram os berros e a tentativa de se soltar. E assim se manteve qual lapa presa à rocha: Mãe, filho e diabo seguros pelos dedos enérgicos da primeira.
A noite chegou, o rapaz adormeceu e o diabo não buliu… poços há que nã resistam a um bom puxão de orelhas: nem o diabo resiste!
M. Constantino
*Rua Conceição da Glória

TEMA — FICÇÃO CIENTÍFICA — O JOGO DO TEMPO E DO DESTINO
De Severina Fortes
Quando os Caminhos do Tempo ficaram abertos e se pode controlar as distâncias a alcançar, permitindo o regresso, ninguém qualificado para essas viagens.
Fora a época romântica do Projecto, de muita abnegação e pioneirismo, criando raízes a uma especialização necessária para melhor cumprir no futuro.
Por fim gerou-se entre os viajantes uma espécie de cansaço, levando-os a não achar assim tão importante a procura que por vezes os compelia a executar, com as suas próprias mãos — no material certo, no local de origem — objectos vários que traziam, enriquecendo o Museu do Homem, na ala dos remotos.
Na verdade tornara-se numa fase dura de labor intenso. Perante o desgaste físico de toda equipa. Jorvas, responsável pelo Projecto, suspendeu as últimas viagens para merecido repouso.
Pessoalmente o ócio cansava-o mais do que o trabalho normal. Sentia necessidade de qualquer ocupação agradável para preencher o lazer.
Lembrou-se então da sua paixão pela História da velha Europa do século. XVIII, especialmente durante a corte do Rei-Sol, passatempo que só verdadeiramente deixara quando aceitara o Projecto dos Caminhos noTempo.
Ainda guardava essa secção da colectânea histórica e decidiu revê-la.
Colocou-a no leitor especificando o tipo de leitura colhido; mas deu-se conta que não Ihe apetecia ler.
Sem contrariedade, deu preferência ao som, passando a escutar o que, afinal, já conhecia tão bem.
Contudo, não estava com muita atenção naquele dia. O seu espírito libertou-se, seguindo uma ideia insidiosa.
A ideia bailou feliz, afastou-se e voltou mais firme. Evitou pensar nela e tornou-se ideia fixa.
E porque sentia particular fascinação por todo aquele fausto, sobrepondo-se a uma gama extraordinária de sentimentos — dando lugar às mais nobres e também torpes potencialidades humanas — aquela ideia tornou-se obcecante.
Quantas vezes já depois dos caminhantes do tempo serem uma realidade, sonhara ir, ele próprio ao encontro de tais emoções. Arredava-se, porém esse sonho — estava-lhe vedado viajar no Tempo.
Mas, novamente a tal ideia cativante surgiu mais audaciosa: enviar alguém competente, capaz de trazer relatos verídicos, o dia a--dia desses tempos de aparato.
Porque não?
Geo foi o escolhido. Robusto, versátil, culto, frequentara Altas Ciências e o seu entusiasmo pelas viagens fora factor de escolha.
No entanto, Jorvas, na sua euforia, conseguiu que Geo compartilhasse do seu interesse, com igual intensidade, estudando ambos qual o melhor momento a escolher.
Tudo correu bem à partida. As possíveis implicações só seriam avaliadas, não depois da partida de Geo, mas quando este não respondeu ao contacto e não voltou.
Foram semanas de tensão em que nada havia a fazer.
Começaram estudos para a nova fase de trabalhos, sem qualquer entusiasmo, até que Geo, já quase inesperadamente, foi recuperado.
Havia uma constante nos Caminhos do Tempo, conhecida e não explicada, em que o viajante era recuperado quando em perigo de vida.
Jorvas não estava presente aquando da sua chegada. Embora alertado de imediato, só pode vê-lo, por instantes, no visor do seu gabinete, antes de seguir para a Regeneração.
Vinha doente; o seu aspecto demonstrava-o bem. Todavia, voltara — o alívio de Jorvas foi enorme.
Agora ficaria na Regeneração. Normalmente, precisaria de três dias para se restabelecer; depois, falariam certamente, de tudo quanto haveria a saber.
Mas Geo não pensava do mesmo modo!
Na noite do segundo dia, fugiu da Sala da Convalescença.
Ainda fraco, conseguira chegar e abrir a porta da sala de comandos.
Dominando-se, tentando não perder o sangue-frio perante a agitação que o tomou, colocou-se rapidamente no passadiço de acesso, mantendo o neutralizador de barreiras a funcionar.
Não queria surpresas!
Sabia que passaria; mas a ânsia de não errar ordenava-lhe cuidado.
Já dentro da sala, junto ao painel do computador, não se deteve, agindo automaticamente, mecanizando gestos com precisão sem deixar de se admirar com a facilidade encontrada. Essa admiração alertava-o para a necessidade de urgência.
Trazia já programadas as coordenadas a introduzir na Alimentação de Programas, com dados específicos, que não mostrara a ninguém.
Queria voltar ao passado!
A experiência feita durante os longos anos que, por uma curiosa distorção do Tempo, passara noutra época — nas poucas semanas que mediaram entre a sua ida e a recuperação temporal — causara-lhe inefável prazer.
Estar à frente, saber mais, atordoar pelo nunca visto, sentir a força da certeza provada, enchera -o de felicidade.
E o curioso fora que nade fizera, na verdade, além de ocupar um lugar que, dir-se-ia esperava por si. As circunstâncias existiam e eclodiram à sua chegada, envolvendo-o como uma teia.
E era isso que não se atrevia a contar a Jorvas!
Como lhe poderia dizer que afinal aquele personagem de lenda, de que tanto tinham falado — apontado por uns como um mistificador, e por outros como um homem de poderes fantásticos era Geo?
Qual a reacção de Jorvas quando soubesse que, por o ter enviado para aquela época, fizera o jogo do Destino e do Tempo, colocando-o no exacto momento e local para a vivência histórica que, doutro modo, não existiria?
O Tempo recolhera-o no preciso instante da grave doença, em que a maioria das pessoas o considerava morto. A volta deprimira-o…
Em plena actividade, todo o complexo mecanismo vibrava suavemente. Aqui e ali, pequenas luzes surgiam e desapareciam num ritmo alucinante, em contraste com outras fixas, mais esparsas.
O painel foi perdendo luminosidade, sussurrando tenuemente, intensificando outros sinais até aí parados.
Subitamente, tudo se mostrou como que suspenso, assustando-o, temendo não saber tanto como julgara.
Enganara-se. Radiante viu surgir um vazio cinzento, semelhante a uma névoa, qual sugestão de nada, que era o princípio do Caminho.
Verificou se as coordenadas aparecidas no visor maior do computador coincidiam com o desejado.
Assim era.
Sem hesitar, apagou os dados com as características pessoais, precaução tomada para o retorno dos viajantes. Não queria voltar!
Como mensagem a Jorvas deixou em lugar bem visível uma delicada miniatura sua
Com o trajo da corte, de cabeleira, em seu poder quando fora recuperado, para descobrisse a verdade — se pudesse…
E sem pena, consciente de seguir a sua vontade e destino, penetrou na névoa cinzenta e desapareceu.

28 de março de 2012

CALEIDOSCÓPIO 88

EFEMÉRIDES – Dia 28 de Março
Day Keene
(1904 – 1969)
Gunard Hjerstedt nasce em Chicago, EUA. Começa uma carreira de actor, mas em 1940 desiste optando pela escrita, primeiro short stories em publicações como a Dime Mystery, Black Mask e Dime Detective. Usa os pseudónimos Day Keene e William Richards; escreve um total de 45 livros, duas dezenas de contos, teatro e rádio. Cria o personagem Jonny Aloha um ex-marine de ascendência havaiana que se estabelece em Los Angeles como detective privado. Day Keene é responsável por um programa de rádio — episódios com a duração de 15 minutos — que se manteve no ar entre 1937 e 1941, Kitty Keene, Inc, a única rádio-novela a ter como heroína uma mulher detective privado. Em Portugal estão editados os seguintes livros:
1 - O Perigo Bateu À Porta (1961), Nº1 Colecção Escorpião, Edições F.B.C.; Título Original: Wake Up For Murder (1952)
2 – O Eterno Triângulo (1957), Nº120 Colecção: Os Melhores Romances Policiais
Livraria Clássica Editora
3 – Payola (1966), Nº44 Colecção Rififi, Editora Íbis; Título Original: Payola (Pyramid) (1960)
4 - Perseguição Implacável (1969), Nº111 Colecção Rififi, Editora Íbis; Título Original: Mrs Homicide (1953)
5 - O Beijo da Morte (1969), Nº122 Colecção Rififi, Editora Íbis; Título Original: To Kiss or To Kill (1951)
6 – Procurado Por Homicídio (1969), Nº127 Colecção Rififi, Editora Íbis; Título Original: Hunt The Killer (1951)
7 – Culpado Por Medida (1970), Nº132 Colecção Rififi, Editora Íbis; Título Original: Framed in Guilt, também editado com o título Evidence Most Blind (1949);
8 – Os Mortos Não Falam (1970), Nº135 Colecção Rififi, Editora Íbis; Título Original: Dead Dolls Don't Talk (1959)
9 – Curvas Perigosas (1970), Nº140 Colecção Rififi, Editora Íbis
10 – Homens em Fúria (1970), Nº143 Colecção Rififi, Editora Íbis
11 – Matar É Pecado (1971), Nº146 Colecção Rififi, Editora Íbis; Título Original: It's a Sin to Kill (1958)
12 - O Homem Que Voltou (1971), Nº151 Colecção Rififi, Editora Íbis; Título Original: The Big Kiss-Off (1954)
13 – A Testemunha (1972), Nº3 Colecção Círculo Negro, Livraria Bertrand; Título Original: Strange Witness (1953)
14 – Mulher Marcada (1973), Nº10 Colecção Círculo Negro, Livraria Bertrand; Título Original: Notorious (1954)
15 – O Álibi Perfeito (1973), Nº19 Colecção Círculo Negro, Livraria Bertrand; Título Original: Carnival of Death (1965)
16 – Paixão Homicida (1974), Nº24 Colecção Círculo Negro, Livraria Bertrand; Título Original: Homicidal Lady (1954)
17 – O Grande Ídolo (1974), Nº27 Colecção Círculo Negro, Livraria Bertrand; Título Original: Love Me and Die (1951)
18 – Cidade Em Fúria (1974), Nº31 Colecção Círculo Negro, Livraria Bertrand; Título Original: Bring Him Back Dead (1956)

Lucille Fletcher (1912 – 2001)
Violet Lucille Fletcher nasce em Brooklyn, New York, EUA. Escritora e argumentista de rádio, televisão e cinema escreve 9 livros, 4 peças de teatro e 8 de rádio todos no género suspense ou policial psicológico. Na sua obra destacam-se The Hitch Hicker, um sucesso na rádio (1941) e Sorry, Wrong Number, também um exito como peça radiofónica , transmitida em 1943,1952 e 1959, editada como romance em parceria com Allan Ullman em 1948 e, mais tarde, base de um conhecido filme negro. A autora recebe em 1960 o Edgar Awad para o melhor drama de rádio por Sorry, Wrong Number na versão produzida pela CBS em 59.






TEMA — CASOS E ACASOS DO CRIME — FALSO SUICÍDIO
O homem estava agitado quando entrou precipitadamente na Esquadra da Polícia, entregando dois papéis ao agente de plantão.
— Acabo de recebê-los pelo Correio — disse, trémulo. — Corri imediatamente…
— Um minuto — interrompeu o agente, inspeccionando os papéis.
Um deles estava assinado: “Renée, tua esposa, que te ama verdadeiramente” Por cima, recitava: “Desde que não me amas, decidi terminar com a vida. Deixo-te tudo o que possuo. O meu testamento vai junto”.
O outro papel era o testamento, feito em forma legal e testemunhado. No momento em que a autoridade ergueu o olhar, o visitante não se conteve:
— Chamo-me François Gormer. Renée é minha mulher. Separámo-nos há alguns meses. Quando recebi esta carta, corri à sua casa, bati bastantes vezes à porta, porém não obtive resposta. Quero que um agente me acompanhe. Depressa, por favor!
O agente mandou chamar o detective Dulage, a quem rapidamente informou do que acontecia.
Quando Dulage chegou a casa da mulher não perdeu tempo. Com o auxílio de dois agentes precipitou-se escadas acima. A senhora Gormer jazia sobre a cama e na mesinha de cabeceira via-se um frasco cheio de xarope de cloro. O detective verificou que a mulher estava morta há diversas horas, devido, obviamente, a uma dose excessiva de cloro que ingerira. Notou, porém, algo que não combinava com a versão do marido. Gormer afirmara que correra para casa da mulher e que batera insistentes vezes à porta. A primeira coisa, porém, que Dulage vira ao chegar, fora uma campainha, em perfeito estado. Depois de chamar o médico legista, começou a examinar o tapete, em torno da cama. Perto da mesinha de cabeceira estava um pedaço de arame muito fino, que reconheceu como um dos usados para desentupir agulhas de injecção. Quando o médico da polícia chegou, nada lhe disse do achado, propositadamente, a fim de não influenciar as suas conclusões.
Não se surpreendeu, portanto, quando o médico anunciou:
— Esta mulher não morreu de envenenamento por cloro. Deram-lhe uma espécie de injecção narcótica.
Dulage sentiu-se agora seguro do terreno para interrogar o marido…, e usar de um pequeno ardil. Depois de lhe ter falado sobre a campainha e sobre a descoberta do desentupidor de agulhas, acrescentou com veemência:
— Não adianta mentir. O senhor disse que não via a sua esposa há meses. Como explica, então., a existência das suas impressões digitais no braço dela, onde lhe aplicaram a injecção?
— Impressões digitais? — inquiriu, atónito, o marido.
— Sim. Descobrimos um método de tirá-las dos corpos.
O truque provocou a confissão de um dos mais estranhos crimes ocorridos em França. Gormer não gostava da esposa, porém, não desprezava os bens consideráveis que ela possuía, por herança. Quando viviam juntos, tinham um criado, Fernand Maran, em que ambos depositavam grande confiança. Quando o casal rompeu, Maran procurou outro emprego. Decidido a livrar-se da esposa e a entrar na posse dos bens, Gormer procurou o antigo empregado, que concordou em tomar parte no plano, por dinheiro. Sabia que madame Gormer estava inconsolável por ter sido abandonada pelo marido, e que tudo faria para recuperá-lo. Maran sugeriu-lhe, pois, que escrevesse a carta suicida e a mandasse, com o testamento, para o marido, tomando a seguir uma dose do soporífero.
— Ele correrá para aqui, encontrando-a na cama, aparentemente morta. Ficará tão satisfeito quando os médicos a tiverem ressuscitado, que, estou certo, voltará para a sua companhia!
A mulher concordou. Gormer entrou na casa às quatro horas da madrugada, mas estava tão nervoso que as suas mãos tremiam ao injectar a dose letal. Despercebidamente deixou cair o pequeno arame, que o levou à guilhotina e mandou o seu cúmplice, Maran, para a prisão, por longo tempo.
M. Constantino

27 de março de 2012

CALEIDOSCÓPIO 87

EFEMÉRIDES – Dia 27 de Março
Joan Fleming
(1908-1980)
Joan Margaret Fleming nasce em Horwich, Lancashire, Inglaterra. Inicia-se como escritora de livros infantis e publica o primeiro policiário em 1949, Two Lovers Too Many. É autora de um total de 32 livros - thillers e novelas góticas. Cria o personagem Nuri Bey Izkirlak, um detective filósofo turco que protagoniza os livros com que vence por duas vezes o Gold Dagger: When I Grow Rich (1962 e Young Man I Think You're Dying (1970).






René-Charles Rey (1934 – 2011)
Nasce em Tunes onde vive até 1964, fixando-se depois em Chilly-Mazarin nos arredores de Paris. Apaixonado por história, ficção científica e banda desenhada inicia-se muito jovem na escrita. No entanto só publica o seu primeiro livro policiário, Descente En Torche em 1974 com o pseudónimo Emmanuel Errer ( iniciais R R do nome) que passa a utilizar nos romances negros com temas de espionagem ou ficção política. Utiliza ainda o pseudónimo Charles Nécrorian na escrita de alguns romances de terror notáveis. Sob o pseudónimo Jean Mazarin publica vários policiários onde os problemas da sociedade são tratados com humor e onde se destacam os seguintes personagens: Esope Mazonetta, um napolitano que depois de uma passagem por Tunes se instala na Côte D’ Azur; Lucien Poirel, o mais jovem comissário de França; Max Bichon, um repórter de assassinatos; Julien Jendrejeski, um agente especial em missões delicadas no estrangeiro; e Frankie-Pat Puntacavello, detective privado em Nice. O autor escreve 50 romance e em 1983 recebe o Le Grand Prix De La Littérature Policière pelo livro Collabo Song (Jean Mazarin).


TEMA — CONTO – A CONFERÊNCIA PEDAGÓGICA
De René-Charles Rey
foi publicado na revista Les Amies do Crime Nº14 (1983?), como “Conto Inédito” escrito em 1956, e aqui se apresenta numa tradução de DJ&JOTA.

Era uma conferência pedagógica como as outras, com essa atmosfera particular que cheirava a passatempo e a tinta violeta. Olhei em volta para tentar deslindar os rostos nas caras atentas. Cada um tinha a sua própria forma para se fazer notar pelo senhor inspector, demonstrado aos colegas o pouco interesse das palavras do homenzinho gordo que se agitava diante do quadro negro Num canto, as professoras mais jovens às vezes galhofavam como estudantes de bancos universitários, desmamadas cedo demais. Na primeira fila, o jovem loiro sonhava, pensando na sua companheira com quem faria amor durante a tarde sobre o sofá do seu apartamento, como todas as quintas feiras. Soltou uma palavra mais alta e corou como se os colegas, de repente detentores de poderes mágicos, pudessem adivinhar o segredos dos seus sonhos.
Diante do quadro negro, o homenzinho procurava penetrar nos segredos de uma psicologia infantil que lhe fugia constantemente. Era um homenzinho bem vestido, com o nó de gravata impecável, cujos sapatos encarniçados contrastavam de forma enervante com o azul marinho do fato. Falava com uma voz clara e por vezes cantante, utilizando palavras simples ou pedantes, por vezes, que denunciavam o antigo professor. Tinha essa aptidão um pouco sisuda que as pessoas de um círculo bem definido adquirem. Partiu cuidadosamente um pedaço de giz, para o impedir de chiar no quadro, sorrindo:
— O importante é o giz. Parti-lo é uma arte.
As primeiras filas fizeram um riso forçado para mostrar que gostavam de piadas. O homenzinho traçou linhas direitas, bem paralelas, de que se orgulhava e preparou-se para inserir um quadro sinopse.
— Tomem notas, porque não encontraram isto em nenhum manual.
Todos se atarefaram e traçaram linhas sobrepostas, procurando inserir o que lhes restava de poesia pessoal. Uma das professoras terminou-as em caracol e mostrou-as às colegas que se divertiram novamente.
De repente senti uma pressão no peito e tive vontade de vomitar. Lembrei-me então da mousse de chocolate, que engoli à pressa antes de me vir sentar, como em todas as quintas feiras, no banco negro e sujo desta escola comunal onde se jogava o meu futuro. Tenho então vontade de me levantar e de gritar, não insultos aos meus colegas nem mesmo contra o homenzinho, mas coisas sem pés nem cabeça, idiotices, só para provar a mim mesmo que, além do mais, eu ainda existia.
O inspector virou-se e o nosso olhar cruzou-se. Ele olhou-me fixamente e eu olhei-o fixamente, imaginando que tivéssemos, talvez, os mesmos pensamentos no mesmo momento. Eu acreditava ter descoberto nos olhos dele uma censura muda, uma desculpa.
— Eu sei que tu não acreditas, nenhum de vocês acredita, mas isso não é da minha conta.
Depois virou-se e consultou uma lista que descobriu na sua agenda:
— Menina Dupréaux, venha apresentar-nos as suas meditações sobre a leitura na escola primária.
Houve sorrisos. A jovem corou e levantou-se, aparentando indignação, mas dentro de no fundo, estava feliz por ir encontrar sua verdadeira juventude diante de um quadro negro. Em qualquer outro lugar, a sua atitude teria sido encantadora, mas aqui pareceu-me inoportuna e irritante. Começou a ler um resumo austero que deve ter encontrado num livro velho com cheiro a mofo e a escola primária. A sala estremeceu. Cada um parecia de repente estar entusiasmado com alguma coisa que desprezara durante toda a semana. Alguns já preparavam os comentários, não parecendo viver senão para dar luta à jovem, como se o que alcançassem nela fosse seu próprio medo. Ela resmungou, procurando incentivo silencioso no olhar paternal do Sr. Inspector.
Enfiei a mão no fundo do bolso interno do fato e os dedos crispados reconheceram o frio metálico da arma. Não sabia como estava no meu bolso, ou porque é que os meus dedos a acariciavam, como se acaricia a anca de uma apaixonada. Deve tê-la guardado inconscientemente esta manhã antes de sair de casa
A jovem ficou em silêncio e um murmúrio de desaprovação encheu a sala. Alguns ansiosamente levantaram o dedo, mas o inspector fingiu não os ver, saboreando devagar o súbito interesse deles pelas coisas em que ele se forçava acreditar. Sorriu inocentemente para a jovem professora e num tom voz condescendente, para tentar marcar o fosso que os separava, declarou:
— Sim menina, mas…
O “Mas” do Sr. Inspector parecia ser o sinal de incentivo que a morte esperava. Não existiu contenção nesta explosão de arrivismo mesquinho. Levantei-me e caminhei em direcção ao Sr. Inspector que não parecia prestar-me atenção, porque iniciava uma longa acusação. Quando passei perto dele, levantou o sobrolho, e em seguida continuou a declamar: — O Sr. Errer tem provavelmente vontade de mijar… pensou ele provavelmente entre duas palavras. Parei em frente do estrado e, lentamente, tirei a arma, então disparei sem pressa, com calma, olhando para os impactos sobre o fato azul-marinho onde apareciam manchas mais escuras.
Quando a arma ficou vazia, deitei-a fora e sai para o pátio, sem sequer ouvir os gritos que sobrevieram o silêncio dos disparos. Foi uma derrota de crianças, que privadas de repente dos pais procuravam agarrar-se a algo que conseguissem entender.
Saí para a rua e dei uns passos na calçada. Estava bom tempo e sol espirrou fachadas. No passeio, à minha frente, uma rapariga veio ao meu encontro. Uma rapariga com traços vulgares com andar de prostituta. Retribuiu o meu sorriso e acentuou o balançar das ancas que me tocaram, mas não a segui. Avancei em passo lento. Os gritos irromperam
— Parem-no… o assassino…o assassino
Parecia que estava a sonhar com uma daquelas histórias de ladrões que haviam feito as minhas delícias durante as aulas de leitura no curso superior. Encolhi os ombros e voltei para trás. Tinha perdido, Eles tinham encontrado um novo mestre
René-Charles Rey (1956).

26 de março de 2012

CALEIDOSCÓPIO 86

EFEMÉRIDES – Dia 26 de Março
Castelo de Morais (1882 – 1949) Justificar completamente
José Gabriel Correia Castelo de Morais nasce em Lisboa. Jornalista, contista e escritor policial colabora com a revista Orpheu, Ilustração Portugueza e outras publicações da época. No policiário destacam-se: Côreo (1910), Avé Eva (1916), e Sangue Bárbaro (1924).


TEMA — FICÇÃO CIENTÍFICA
BIBLIOTECA ESSENCIAL DE FICÇÃO CIENTÍFICA E FANTASIA (7)

Volume 15 — The New Adam (1939) de Stanley G. Weinbaum
Volume 16 — The The Black Flame (1939) de Stanley G. Weinbaum

Stanley Grauman Weinbaum (1902-1936), engenheiro químico americano, morreu muito novo, deixando ficar obras cuja fama só viria a verificar-se posteriormente The New Adam e The Black Flame estão nesse caso.

The New Adam é um estranho e sinistro relato, no qual um génio, dotado de um cérebro duplo deve assumir o governo da raça que ,sucederá ao homem vulgar. Esse homem, Edmond Hall, é uma nova espécie de Homo Sapiens, tem, porém, os seus problemas para encontrar a felicidade, os seus amores êxitos e, à semelhança de outros, este homem aperfeiçoado até ao último grau, a criatura que representa o super-homem, tem insucessos.
Em Portugal o livro foi editado em 1970.
Ficha Técnica
O Novo Adão
Autor: Stanley G. Weinbaum
Ano da Edição: 1970
Editora: Galeria Panorama
Colecção: Antecipação
Páginas: 205
The Black Flame é uma das primeiras novelas a tratar o tema do holocausto atómico, anos antes de Hiroxima. Articula-se em duas partes: a primeira, a história de Margot, “A Negra",e de seu irmão, convertidos em seres imortais graças a um complicado processo biológico, que reinam despoticamente sobre um grupo de homens sobreviventes ao holocausto; a segunda, começa pela aparição de um homem do passado que conseguira sobreviver em estado cataléptico e modificar o destino da civilização pós-atómica.


Volume 17 — Slan (1939) de A. E. Van Vogt

Alfred Elton Van Vogt (1912-2000), filho de pais holandeses nasceu no Canadá, afeiçoado leitura, com especial predilecção pelos pulps, publicou o seu primeiro conto no Astounding Science Fiction criando desde logo uma instantânea reputação. Além dos escolhidos, citam-se entre a sua vasta produção — Destination:Universe, The Mind Cage,The Twisted Men,Rogue Ship,Children of Tomorrow, The Darkness on Diamondia, Future Glitter e Cosmic Encounter.



Ficha Técnica:
Slan
Autor: A. E. Van Vogt
Ano da Edição: 1955
Editora: Livros do Brasil
Colecção: Argonauta 23
Páginas: 241

25 de março de 2012

CALEIDOSCÓPIO 85

EFEMÉRIDES – Dia 25 de Março
Lionel Black
(1910 – 1980)
Dudley Raymond Barker nasce em Londres, Inglaterra. Jornalista, repórter e editor, escreve sob os pseudónimos Anthony Matthews e Lionel Black, este utilizado nos livros policiários. Escreve 17 romances deste género literário, o primeiro publicado em 1960 A Provincial Crime. Cria as séries Emma Greaves Mystery (3 títulos), Kate Theobald Mystery (7 títulos) e Superintendente Francis Foy (3 títulos).



TEMA — PEQUENAS GRANDES JÓIAS DO CONTO — O HÓSPEDE
De Lúcio Mendonça
(1854-1909), jornalista e escritor brasileiro.


Ele aí está, que o diga o Oliveira, aquele rapagão de bigode louro e olhar azul, que viajou como caixeiro de cobranças, "cometa", e hoje é repórter. Por sinal que foi a última viagem de cobrança que fez, e de tão horrorizado mudou de vida e profissão. Foi ele mesmo quem me referiu o caso. Aqui o dou pelo custo, sem nada meu.

Ao cair de uma tarde chuvosa de Março, chegava o cobrador, extenuado e faminto, a uma vendola à beira da estrada, da longa estrada fastidiosa, pelos campos, que vai de Alfenas ao Machado, no sul de Minas.
Junto à venda havia a casa de morada, pequena, tosca e suja, dum velho casal português, que ali se fixara e vendia os produtos da pequena lavoura, cultivada nas suas terrinhas, e os furtos trazidos à noite pelos escravos da vizinhança.
Pousada, não era costume dar-se ali; Alfenas ficava a uma légua, e os donos da casa diziam despachadamente que aquilo não era hospedaria. Mas, com o Oliveira, o caso era especial: trazia já as suas oito léguas bem puxadas e uma fome de carrapato, e depois, com tanta carga de água, não havia meio de continuar viagem. Pediu pousada e ceia, pagando eu — acrescentou.
— Ceia, arranja-se-lhe — disse o Zé Manuel, o taverneiro velho; lá a cama é que está mais difícil, que não recebemos hóspedes para dormir.
E com o olhar consultava a mulher, a mulheraça, anafada e pachorrenta, aboborada para dentro do balcão.
— Não, por isso não seja — opinou ela; dá-se-lhe o quarto do Jequim.
— Bem lembrado — concordou o vendeiro; — temos ali assim um quarto agora desocupado, que é o de nosso rapaz, que anda por fora; lá para o Carmo do Rio Claro; tem cama e colchão, que é o preciso para dormir… Se lhe serve…
— Serve, serve — aceitou logo o Oliveira. — E dêem-me alguma coisa que se coma; estou morto de fome!
Enquanto se punha a janta, desarretou a besta, guardou os arreios no quarto que lhe destinaram, contíguo à saleta da frente e com janela para a estrada; levou o animal ao pasto, um pastinho fechado, muito perto; e voltou para cuidar de si.
Antes, porém, de sentar-se à mesa, onde já fumegava o feijão com couves e a canjiquinha, pediu que lhe trouxessem uma peneira.
— Uma peneira! Ora essa!
— É cá para uma precisão!
Trouxeram-lha, e ele então sacou do bolso das calças um maço de dinheiro em papel, uma bolada de notas húmidas da chuva que apanhara, e estendeu pelo crivo da taquara as cédulas grandes, de duzentos, de cem, de cinquenta mil réis, uma boa meia dúzia de contos. Passou a peneira para a ponta da mesa a que não chegava a toalha, e entrou a servir-se da ceia no prato de louça azul, com a colher de ferro.
Ao levar à boca uma colherada, surpreendeu à porta da saleta o olhar aceso com que lhe comiam o estendal das notas, a velha portuguesa, que o servia, e o marido, que entrava com uma garrafa de vinho.
Tão cobiçoso era o olhar de ambos, que coou na alma do rapaz um frio de medo e um clarão de pressentimento. Logo, ali mesmo, resolveu acautelar-se, arrependido da imprudência de ter mostrado tanto dinheiro.
Acabando de cear, declarou que muito cedo, ao romper do dia, seguia para Alfenas, e por isso deixava paga a hospedagem; deram-lhe a boa-noite e recolheu, com uma vela de sebo, ao quarto do Joaquim.
Mal se viu só, tratou de ajuntar as notas que espalhara na peneira, tornou a enfiá-las no bolso, e apenas a casa sossegou em silêncio, ali por volta da meia-noite, saltou pela janela com os arreios e a mala à cabeça, foi ao pastinho fechado, selou a besta e tocou para a cidade, ao belo clarão da lua que despontava.

Nem bem se perdera ao longe o estrupido da besta que levava o cobrador, quando novo tropel de animal soou no terreiro da venda; era outro cavaleiro, que saltou do lombilho abaixo e em três tempos desarreou o cavalo em que veio e com um chupão nos beiços apinhados tocou-o para o campo.
— Diacho! A minha janela aberta! — murmurou consigo. — Melhor! Entro sem precisar bater e acordar os velhos a esta hora.
E, agarrando-se com o braço direito ao peitoril da janela, saltou para dentro, levando na outra o lombilho, o baixeiro e o freio, e logo tornou a fechar a janela, que o frio não era graça.

À alta madrugada, quando começava a amiudar o canto dos galos, dois vultos, cautelosos, sorrateiros, surdiram do interior da saleta da frente; um deles, o mais alto impeliu de manso a porta, apenas cerrada, e penetrou no quarto.
Da cama, ao fundo, ouvia-se a respiração compassada e forte de um bom sono ferrado. Aproximou-se o vulto, guiado pelo resfolegar do que dormia e pela ténue claridade que vinha da saleta, onde o outro vulto, agachado e trémulo, sustentava e velava com a mão encarquilhada um candeeiro de azeite.
Súbito, no silêncio da habitação, soaram, soturnas, repetidas, machadadas rápidas, uma, duas, três, muitas, regulares a princípio depois desatinadas.
— Anda! Traz a luz! — estertorou uma voz estrangulada.
Entrou no quarto o outro vulto, a velha gorda, com a candeia acesa.
Apenas a luz bateu na cama, numa horrível massa de roupas e carnes ensangüentadas, dois gritos sufocados misturaram o seu horror:
— O Jequim!!!
— O filho!! O meu rapaz!!

Fora, na estrada deserta, voejavam os bacuraus, como almas penadas.

24 de março de 2012

CALEIDOSCÓPIO 84

EFEMÉRIDES – Dia 24 de Março

John K. Butler (1908 – 1964)
Nasce em San Francisco, Califórnia, EUA. Autor de dezenas de contos publicados entre 1935 e 1942 nas revistas Black Mask, Detective Fiction Weekly, Double Detective e especialmente Dime Detective. Os seus personagens mais conhecidos são: Steve Midnight taxista em Los Angeles, Rex Lonergan detective da polícia, Tricky Enright um policia à paisana e Rod Case investigador da General Pacific Telephone Company. Butler é ainda conhecido como um dos mais prolíficos argumentistas de filmes da classe B, westerns, mistério e suspense. Na década de 50 muda-se para a televisão
onde escreve para as séries The New Adventures of Charlie Chan, The Adventures of Dr. Fu Manchu e 77 Sunset Strip, a primeira série de detectives privados na televisão, exibida entre 1958 e 1964.




Donald Hamilton (1916 – 2006)
Donald Bengtsson Hamilton nasce em Uppsala, Suécia e emigra em 1924 para os EUA. É escritor e fotografo a tempo inteiro, começa a carreira literária em 1946 em revistas de ficção e em 1947 publica o primeiro livro Date With Darkness, um romance de espionagem. No campo da literatura policiária escreve um total 27 romances de detective/espionagem. O seu personagem mais conhecido é Matt Helm, um assassino profissional com o nome de código Eric, que trabalha para uma agência governamental e mata sem remorsos é muito mais pragmático e implacável do que o colega britânico, o famoso James Bond. Os romances desta série, The Retaliators (1976) e The Terrorizers (1977) são nomeados para o Edgar Award para Best Paperback em 1977 e 1978.








Lene Kaaberbøl (1960)
Nasce em Copenhaga, Dinamarca. A autora pertence a nova vaga de escritores escandinavos de policiário, embora seja mais conhecida internacionalmente pelos seus livros de fantasia passados na Idade Média e destinados a jovens. Em parceria com Agnete Friis escreve o thriller Drengen I Kufferten / Boy In The Suitcase (2008) proposto para o Glass Key Award, um prémio sueco que distingue anualmente o melhor romance de crime escrito por um autor nórdico.











TEMA — ENIGMA POLICIÁRIO DE TRAJECTÓRIA
Este tipo de enigma tem muitas afinidades com a investigação e técnica policiais correntes. A direcção ou trajectória, ponto material no seu movimento ou linha descrita ou percorrida por um corpo em movimento, revela de imediato, e na generalidade dos casos, os x e y correspondentes ao arremesso e impacto investigados, corrigidas naturalmente, as perturbações ou desvios ocasionais a que houver lugar.
Em balística, diz-se trajectória, à curva descrita pelo centro de gravidade de um projéctil no seu movimento de transladação através da atmosfera. Tem o seu ponto de origem a boca da arma e o limite ou termo, o ponto atingido.
Dos caprichos de uma trajectória de um projéctil nos dá conta um texto mundialmente conhecido, Mostly Murder, de Sir Sidney Smith, professor de Medicina Legal da Universidade de Edimburgo
É evidente que, para um estudo profundo em matéria de balística remetemos os interessados para os vários compêndios existentes, para os efeitos da problemística lembramos, tão só, das vantagens em fixar pontos de movimento. Também a altura do agente que origina a trajectória, a distância e a posição em relação ao atingido, quando não a instantânea identificação daquele, são os resultados extraídos da observação da trajectória.

ENIGMA PRÁTICO — UM CASO SINGULAR
De GUSTAVO JOSÉ RODRIGUES in Quem Foi? (1959)
O meu carro seguia em marcha moderada, o mesmo acontecendo com os dois veículos que me precediam — um carro baixo, de linhas aerodinâmicas e um camião de mudanças; que dir-se-ia absorver com a sua altura o carro da frente.
A meu lado, o inspector Machado criava uma atmosfera alegre com as suas curiosas observações.
De súbito virei a cara, espantado, para a direita, onde, no passeio, um homem alto e bem vestido, que seguia na mesma direcção do automóvel, depois de dar duas voltas sobre si mesmo, caiu redondo por terra, como que fulminado. Instintivamente, e logo que o inspector Machado se apeou lesto, ao mesmo tempo que me dizia para seguir os outros dois carros. Assim fiz; e se depressa alcancei o camião, já o mesmo não aconteceu com o outro veículo que, mais veloz que o meu, cada vez se distanciava mais. A certa altura começou a abrandar e eu pude, então, ver a matrícula. Anotei-a rapidamente, sob a do camião, e voltei a grande velocidade para o local do acidente.
O inspector Machado, rodeado de alguns curiosos, poucos, pois a rua era pouco concorrida, debruçava-se sobre um corpo, assim como um polícia de giro.
Aproximei-me. Da cabeça da vítima o sangue brotava abundantemente.
Indisposto com tão triste espectáculo, afastei-me um pouco. As janelas das casas próximas eram todas altas e não tinham persianas — o género de habitações antigas. Começava a sentir-me um pouco melhor quando o inspector me fez um sinal e se encaminhou para o automóvel. Entrámos e afastámo-nos do local em silêncio.

Naquele instante passavam alguns peões? — perguntei ao inspector, mal nos acercámos do edifício policial.
— Sim. Um que seguia um pouco atrás do pobre homem e que se preparava para o ultrapassar.
— Viu-o?
— Absolutamente. Seguia colado à parede, pois o passeio é bastante estreito. No outro não reparei porque ia muito à frente, quase no outro extremo da rua.
Entretanto, tínhamos chegado ao gabinete do inspector. Ali, depois de atirar o casaco para uma poltrona, o polícia perguntou-me:
— E por que esperas, meu rapaz? Tomaste conta da ocorrência?
— Claro — disse eu, ligeiramente perturbado. — Aguardemos, porém, o relatório médico.
Decorrida quase uma hora, uma ordenança entrou no gabinete, portadora do relatório pelo qual eu tanto ansiava.
O inspector leu-o rapidamente. Finda a leitura, acendeu um cigarro e pôs-se a passear de um lado para o outro.
— Toma, meu rapaz. — disse, estendendo-me o relatório. — É fácil, mesmo muito fácil. A bala alojou-se à direita, junto à sutura do parietal com o temporal. Foi disparada à distância de quatro a seis metros. A sua trajectória fez-se na oblíqua ascendente.
Não tive necessidade de ler o relatório, O meu amigo inspector poupara-nos esse trabalho. Na verdade, o caso era fácil.
— Exacto -disse o inspector, após ter escutado as minhas deduções. Exacto…
Quem matou? Pense um pouco.
Para conhecer a solução do autor envie e-mail para policiariodebolso@gmail.com





TEMA — HUMOR — EM LOUVOR DO MÉTODO DEDUTIVO
Felix da Picota,
um dos grandes do Policiário dos anos 50, honrou-nos com uma paródia dos excessos de confiança de Sherlock Holmes
.

Li uma vez, num romance policiário, uma coisa que me fez rir: o detective tinha, deduzido que tal personagem era procedente da Escócia porque tinha reparado numa pequena mancha de lama seca, cor de rosa ou com tons violáceos, na dobra da calça… Ninguém poderá negar que Sherlock Holmes tem muito disto, e é aí que reside o seu maior mérito. Mas agora encontro-me em condições de provar, com uma experiência pessoal, o valor e a eficácia do método dedutivo.
Foi um livro, cujo nome esqueci, que me deu o gosto de experimentar. Encontrei-me, assim, em frente a um par de sapatos, analisando-os. As pasmosas conclusões a que cheguei — afirmo-o — são absolutamente verdadeiras, nos seus mais pequenos pormenores.
A primeira dedução que fiz poderá parecer irrisória a qualquer espírito menos prevenido mas revela de forma inequívoca o método seguido: o dono dos sapatos era um homem, porque aquele era um par de sapatos para homem! Tinha de altura precisamente 1,74 metros, e pesava 72,300 kg. Era pessoa remediada, porque tinha podido comprar aqueles sapatos — se já os tivesse pago, é claro. E era desleixado, sem personalidade e sem a mínima percentagem de bom gosto, porque os sapatos eram impossíveis, duma cor impossível, e estavam sujos e por engraxar... Trabalhava num escritório, porque a sola interior estava colada com cola tudo. E era patriota, porque a cola--tudo era nacional. Chamava-se Epaminondas (na realidade, só uma pessoa chamada Epaminondas era capaz de comprar sapatos como aqueles). Tinha 43 anos e três meses, e era casado: o cabedal da parte superior estava riscado, com marcas que só podiam ter sido feitas por uma vassoura de varrer a casa. E era casado com uma morena, porque encontrei, caído sobre um dos sapatos, um longo cabelo loiro. Tinha um calo no pé esquerdo, no sítio em que vi, pela parte de dentro, uma reentrância. Não usava o tónico capilar “Foi um ar que lhe deu”, porque o exame microscópico revelou a presença de caspa caída nos sapatos, e só tem caspa quem não usa o tónico capilar. “Foi um ar que lhe deu”…
Outros objectos que encontrei dentro dos sapatos (um pequeno seixo, uma ferradura, uma luva de boxe, um bilhete de carro eléctrico e fragmentos duma caneta esferográfica) conduziram-me às seguintes conclusões: o nosso homem era gago, supersticioso, de espírito prático mas acanhado, e com o sistema nervoso avariado. Ainda desta vez exporei a maneira como cheguei a tais resultados:
1) Gago — em virtude do seixo; lembremo-nos de Demóstenes e de como curou a sua gaguez;
2) Supersticioso — por causa da ferradura (diga-se, em abono da verdade, que se tratava duma pequena miniatura em latão;
3) De espírito prático —a luva de boxe estava desenhada num bocado dum jornal, que ele tinha a tapar uma fenda do sapato;
4) Acanhado—hábito, ou defeito, que adquire toda a gente que anda de carro eléctrico.
5) Sistema nervoso avariado — caneta esferográfica… e não é preciso dizer mais nada!
Direi ainda alguns outros resultados a que cheguei, embora omita o processo dedutivo, que é sempre o mesmo, por me parecer que apresentei já exemplos em número suficiente. Insisto, porém, em que as minhas conclusões, embora possam surpreender pelo inesperado, são absolutamente verdadeiras. Assim, soube que ele morava num 5º andar com elevador; que o porteiro do prédio se chamava Baptista; que tinha um tio rico na Venezuela, dono duma fábrica de pavios para velas e que não havia meio de morrer; que nas horas vagas se dedicava a fazer escritas por fora; e, para finalizar por agora (se relatasse toda a minha observação, nunca mais acabaria), a mais estranha e incompreensível de todas as deduções no género, jamais feita por um ser humano: o nosso homem tinha espirrado três vezes seguidas, em dia e hora que fixei rigorosamente, na sala de jantar de 2ª classe de um navio para o Brasil, com escala pelo Funchal, onde ele desceu para visitar um primo que estava com a varicela e que lhe pagou a passagem!
Aqui fica uma ligeira amostra do muito que se pode conseguir empregando simplesmente um pouco de dedução e raciocínio. É com entusiasmo que recomendo a toda a gente este método. E oxalá a minha experiência desperte a curiosidade do leitor. Você, que me está a ler, analise hoje mesmo um par de sapatos. Verá as admiráveis mas verdadeiras conclusões a que chega.
Principalmente se pegar nos seus próprios sapatos, que foi o que eu fiz!




23 de março de 2012

CALEIDOSCÓPIO 83

EFEMÉRIDES – Dia 23 de Março
Philippe Bouin
(1949)
Philippe Bouin nasce em Bruxelas, Bélgica. Trabalha na área de marketing e comunicação até se iniciar na escrita em 2000 com Les Croix de Paille, vencedor do Prix Océanes 2001. O livro é um sucesso editorial, passado na época de Luís XIV e onde o autor põe em cena o jovem Dieudonné Danglet, um dos seus personagens principais. O segundo livro, Implacables Vendanges (2000) tem como protagonista Soeur Blandine, uma religiosa nada comum; este livro recebe o prémio Prix Métier et Culture 2001. Philippe Bouin está publicado em vátios países e tem até agora duas dezenas de obras. Destaca-se: Mister Conscience (2006), considerado o primeiro thiller do escritor e vencedor do Prix Lgm Lire 2007 e Comptine En Plomb, que se insere na escrita do romance negro e recebe o Prix Polar Cognac 2008. Philippe Bouin é o criador e o organizador do Raisin Noir, um salão de literatura policial e de mistério, um encontro de autores em Bourgogne-França, local onde o escritor vive.

Steven Saylor (1956)
Nasce no Texas, EUA. Diplomado em história e literatura antiga, inicia com Roman Blood, em 1991, a série Roma Sub Rosa, um conjunto de 12 romances policiários históricos com o protagonista Gordianus, passado na Roma de Cícero, César e Cleópatra. As short stories sobre Gordianus aparecem no Ellery Queen’s Mystery Magazine e em antologias, mas estão reunidas em 2 livros: The House Of The Vestals (1997) e A Gladiator Dies Only Once (2005). O primeiro conto de Gordianus, A Will Is a Way ganha em 1993 o Robert L. Fish Award que Mystery Writers of America atribui anualmente à melhor primeira short story de mistério de um autor. Ainda nesta série o autor tem agendado para Maio deste ano o 13º volume, The Seven Wonders. Steven Saylor escreve 2 livros cuja acção decorre no Texas, A Twist At The End (2000), baseado no registo americano mais antigo de crimes em série que aterrorizaram Austin, Texas em 1885; o protagonista é o jovem William Porter, que seria mais tarde o famoso escritor O’Henry; o outro livro Have You Seen Dawn? (2003), um thiller contemporâneo. No entanto as obras mais célebres deste autor são as da série Roma: The Novel of Ancient Rome (2007) e Empire (2010), ambos bestsellers internacionais. O autor tem obras traduzidas em 21 línguas e em Portugal estão publicados 16 livros pela Quetzal Editores e pela Bertrand Editora.







Em 23 de Março de 1999 o célebre escritor Thomas Harris entrega finalmente (com anos de atraso) um manuscrito de 600 páginas aos seus editores, Delacorte Press. Este novo romance Hannibal, a segunda parte de um contrato, com mais de 10 anos, celebrado com a editora e pago antecipadamente é lançado três meses depois,
Hannibal é o terceiro romance do serial killer Hannibal Lecter, que apareceu pela primeira vez em 1981 em Dragão Vermelho. O segundo livro O Silêncio dos Inocentes (1988), vendeu cerca de 10 milhões de cópias e foi adaptado ao cinema por Ridley Scott.


TEMA — CASOS E ACASOS DO CRIME — A CAVEIRA REVELADORA
— Se alguém lhe mostrar uma caveira com um buraquinho no crânio lembre-se que é dessa forma que seu crânio ficará, se falar.
Esta ameaça silenciou todas as testemunhas possíveis e completou o último passo de um crime perfeito. Até a vítima tinha cooperado com o assassino. Durante trinta anos residira numa fazenda próspera no Rio Bow. Guardava o seu dinheiro em jarros de vidro, escondidos na fazenda, em vez de depositá-lo nos Bancos. Usava o nome de Tucker, mas o seu verdadeiro nome era Peach.
Nunca foi visto sem o chapéu puxado sobre os olhos e usava uma barba que lhe mascarava a parte inferior do rosto. Falava pouco e quando lhe dirigiam a palavra dava respostas lacónicas. Não tinha amigos: Um dia de Março de 1910 anunciou na agência do correio de Glays que tinha entregado a sua fazenda a um rapaz chamado Tom Robertson e ia voltar à sua pátria, a Inglaterra. Depois ninguém mais o vira.
O assassino fora um homem chamado Jack Fisk, conhecido ladrão de cavalos. Se algum fazendeiro protestava, Fisk ameaçava matá-lo, mas sabia que não podia manter o seu império de terror se não matasse alguém para exemplo da comunidade do Rio Bow.
Tucker era candidato natural. Tucker desejava apenas que Robertson tomasse conta da fazenda enquanto ele ia a Inglaterra; contudo, escreveu o que Robertson ditou e isto foi um documento de venda.
Fisk então matou Tucker com um tiro na cabeça e levou os mil e quinhentos dólares que sua vítima guardava em jarros de vidro. O cadáver foi atirado ao Rio Bow e Fisk não se importou que o vissem. Depois de cumprida uma das suas ameaças, sabia que todos guardariam silêncio.
Dois meses mais tarde um cadáver decapitado foi encontrado no rio. A decomposição estava tão adiantada que o Chefe da Polícia Montada de Calgary foi incapaz de fazer outra identificação, excepto que se tratava de um homem de cerca de 60 anos de idade e de estatura mediana. Em Novembro, quando o rio congelou, um homem, ao atravessá-lo, viu uma caveira brilhando como uma pedra branca. Havia um orifício de bala na testa, no centro de uma depressão causada pelo afundamento do frontal, com rachas que irradiavam.
A longa submersão fizera as rachas parecerem ter sido feitas pela bala, porém um cientista, Dr. Revell, verificou que a depressão e as rachas eram resultado de uma antiga fractura de crânio. Um detalhe interessante: embora a carne tivesse desaparecido inteiramente, encontravam-se nos ouvidos dois tufos de algodão.
— O homem era provavelmente surdo — declarou o Dr. Revell. A causa da surdez foi o ferimento na cabeça, resultante de um coice de cavalo.
Deane, o chefe da Polícia, percebeu que, por medo, ninguém queria falar. Soube, que o único homem desaparecido era Tucker. O seu hábito de usar o chapéu puxado sobre a testa interessou, o investigador. Um homem com um defeito no rosto procura ocultá-lo.
O detective foi à antiga fazenda da vítima e falou com Robertson. Este apresentou o documento de compra da propriedade.
— Era surdo?
— Sim, era.
— Recebeu há tempos um coice?
— Sim, de um cavalo — explicou o homem.
Deane pensou em prendê-lo mas desistiu, pois Robertson não era capaz de aterrorizar uma comunidade inteira.
Os agentes policiais mantiveram-se em constante vigilância. Com o tempo verificaram que apenas um homem não participava do terror dos demais. Esse homem era Jack Fisk. Investigações revelaram que Fisk trazia Robertson sob o seu inteiro domínio e tinha um estábulo na cidade próxima. Os animais eram obtidos sem fontes misteriosas.
O investigador mandou prender os dois suspeitos. Robertson fraquejou e confessou, porém Fisk não. Durante o inquérito policial, quarenta e três testemunhas, vendo o olhar cheio de ódio do acusado, recusaram depor contra ele. Entretanto a sua habilidade para aterrorizar testemunhas foi um tiro pela culatra — o júri considerou-o culpado. Foi enforcado no dia 27 de Abril de 1911. O crime perfeito arruinado pela caveira de um surdo encontrada no gelo. Robertson foi condenado a prisão perpétua. Com a morte de Fisk, o terror dissipou-se na comunidade, e toda a história se tornou conhecida.




TEMA — CONTO DO VIGÁRIO — VIGARISTA DESDENTADO
Carl Erbe o famoso chefe de relações públicas, ocupou um escritório do Brill Bulding, na Broadway, quando dirigia o Singapore Club, que funcionava em baixo. Uma tarde um sujeito entrou no escritório de Carl, abriu a boca para dizer algo, porém não se ouviu nenhum som.
— Que foi que houve, companheiro? — perguntou o prestativo Erbe, reparando nas roupas maltrapilhas do estranho, bem como na sua palidez e no olhar de fome.
— Deseja um pouco de comida, ou coisa que o valha? ~
O homem finalmente falou, com os olhos húmidos:
— Eu não o conheço, e o senhor não me conhece — murmurou — estou desesperado e dizem que o senhor é homem direito. Se eu não conseguir um empréstimo de 250 dolares a minha mulher, e meus cinco filhos serão postos na rua e morreremos de fome.
Erbe comoveu-se.
— Gostaria de ajudá-lo — respondeu com bondade — mas olhe, duzentos e cinquenta bagarotes um bocado de dinheiro. Quer saber de uma coisa? Dou-lhe cinquenta e com isso talvez ajude um bocadinho. Nesta altura o sujeito rebentou em lágrimas.
— O senhor, é uma pessoa excelente, maravilhosa — soluçou — mas não posso receber os cinquenta dólares sem lhe dar uma garantia qualquer. Espere um momentinho. Com estas virou as costas a Carl, tacteou nos bolsos e depois entregou ao seu benfeitor um pequeno pacote embrulhado em papel, dizendo em voz quase inaudível:
— Fique com isso como garantia até eu devolver o que me emprestou. E logo saiu porta afora, tão silenciosamente quanto entrara.
Carl quase caiu ao abrir o embrulho e ver o conteúdo: uma dentadura completa, superior e inferior. Sentindo a necessidade de um trago, tomou o elevador e entrou bamboleante no Turf Restaurant, do andar térreo, juntando-se a um grupo de editores musicais do mesmo edifício, a quem contou a história.
— Ora, és idiota — riram — se investigares um pouco por aí vais ver que foi o décimo pato a quem esse sujeito abordou. Trabalha com mais pontes do que as autoridades do porto de Nova Iorque, e a polícia daria um dente para lhe deitar as unhas!
Erbe sacudiu a cabeça e jogou a garantia dentro de um cinzeiro.
— Bem, mas é preciso admitir que tal sujeito descobriu uma vigarice original — sorriu ele sem vontade.

22 de março de 2012

CALEIDOSCÓPIO 82

EFEMÉRIDES – Dia 22 de Março
Dutra Faria (1919 – 1978)
Francisco de Paula Dutra Faria nasce em Angra do Heroísmo, Açores. Figura fortemente ligada ao Estado Novo. Com o pseudónimo Patrick Al-Cane publica em folhetins no Diário da Manhã O Mistério da Serra Interdita, que é posteriormente editado pela Tipografia Olegário Fernandes em 1945, é Nº 1 da Colecção Biblioteca da Aventura e do Mistério.



Ella Griffiths (1926 – 1990)
Nasce em Oslo, Noruega. Usa diferentes pseudónimos: Ella Griffiths Ormhaug, Ella Griffiths Hytten, Ella Ormhaug e Ella Hytten. Escreve livros para crianças, jovens, contos, ficção científica e romances desde 1957. Inicia-se na narrativa policiária com Hun Møtte en Fremmed, (Ela conheceu um estranho, em tradução literal) e até 1988 publica um total de 16 livros nesta temática. Está traduzida em várias línguas. O seu livro Hilsen Lucifer (1970) recebeu vários prémios. As suas obras mais conhecidas são as que têm como personagens principais os detectives e irmãos Rudolf e Karten Nielsen: Murder On Page Three (1984), The Water Widow (1986) e ainda Dead Men Don't Steal, um livro de short stories, algumas incluídas na conhecida série britânica Contos do Imprevisto.

James Patterson (1947)
Nasce em Newburgh, New York, EUA. É um dos escritores mais conhecidos e com mais vendas de sempre, o autor de alguns dos bestsellers da última década. Estima-se que se tenham vendido 220 milhões de cópias dos seus livros em todo o mundo. O autor tem uma vastíssima obra literária, com livros para crianças e jovens, ensaios e ficção, mas o destaque vai para o thiller. O primeiro livro escrito por Patterson é The Thomas Berryman Number (1976), vencedor do Edgar Award para Best Fist Novel em 1977. Cria a série Alex Cross, o detective/psicólogo que surge pela primeira vez em Along Came a Spider (1992) e tem hoje um total de 20 livros; a série Women's Murder Club, com 11 títulos; e a série do detective Michael Bennett, escrita em parceria com Michael Ledwidge, com 5 livros. O autor tem adaptado diversos trabalhos ao cinema e televisão, o mais conhecido é A Conspiração da Aranha com Morgan Freeman no papel de Alex Cross. Em Portugal estão editados vários livros do escritor pela Editorial Presença e Quinta Essência, esta última com a série O Clube das Investigadoras.




TEMA — NARRATIVA POLICIÁRIA — TRAIÇÃO DA AMNÉSIA
De Susana Raposo
O orvalho da manhã deslizava suavemente pelas folhas das escassas plantas rasteiras que revestiam aquele bom pedaço de terra batida.
A espessa bruma matinal quase que ocultava o simpático aglomerado de pinheiros, e alguns eucaliptos.
O indivíduo, estendido como que ao abandono, espreguiçava-se mergulhado numa atitude despreocupada, totalmente absorto do mundo que se estendia à sua volta. O seu olhar perdia-se, talvez deslumbrado, por todo aquele espaço desconhecido; sentia-se perfeitamente tonto, como se tivesse despertado de um sonho esquecido e incontável, do qual a sua existência emergisse e renascesse simultaneamente, não se recordando assim de qualquer passado que tivesse deixado repousado num tempo antecedente.
Estes seus pensamentos confusos e inseguros, foram estridentemente interrompidos por uma sirene barulhenta.
Instintivamente ergueu-se. Era irremediavelmente dominado por algo que tomava conta do seu ser… sim, era a sua própria amnésia que lhe coordenava os movimentos. Cortava a bruma, desviando-se frequentemente dos obstáculos que eram os ingénuos pinheiros. Dirigia-se a uma mancha de pessoas que se avistava ao longe.
Do local brotavam murmúrios e lamentações.
Uma mulher de meia-idade inundava-se em lágrimas, debruçada sobre um corpo moribundo e ensanguentado.
— Foi ele! Ainda tem o ódio escrito na face! — exclamou a mulher, de um modo agressivo mas triunfante, assim que reparou no primo do seu marido, que acabara de chegar ao local do massacre.
O homem não ofereceu qualquer resistência. O seu estado tornara-se ainda mais obscuro.
Dois dias depois, já atrás das grades, a sua memória voltou a assumir a sua posição. Vinham-lhe as imagens da forma como tinha espancado o seu primo… mas em sua auto-defesa.
O primo não lhe perdoara o facto de ter regressado ao seu país natal, pois uma saborosa herança estava em jogo. Apesar de seu pai ter deixado a fortuna em testamento ao parente mais próximo, o primo que já não vivia, ele podia reivindicá-la caso aparecesse com tal intento.
A amnésia traiu-o. Fora ela que o conduzira ao local onde tinha deixado o defunto. Sim, de facto ele tinha morto um homem… um parente, mas naquela noite o primo tinha-o procurado para matá-lo a ele, só que a situação invertera-se.
E o seu carro? O que seria feito dele depois de se ter esmagado, contra o poste à beira da estrada?
A sua própria amnésia tinha sido a sua condenação.
Talvez um dia pudesse voltar ao estrangeiro e esquecer tudo aquilo, como outrora esquecera também o passado.


TEMA — FICÇÃO CIENTÍFICA — PARA ALÉM DO TEMPO
De J. F. T. Gonçalves
A nave passou zumbindo a rasar as copas das árvores verdejantes que rodeavam o vale, onde, algures no tempo, ficava a base-mãe.
Tangor, oficial da Esquadrilha Temporal do planeta Beta 5 do sistema de Centauro, dominou finalmente a angústia que o atormentava, depois da quinta evolução em torno do planeta. Estava no seu planeta natal, mas totalmente deserto dos milhões de seres, que algumas horas atrás o habitavam.
Tangor regressara de uma missão de rotina, e encontrara o planeta sem quaisquer vestígios de civilização. Apenas um templo, que observava pelo visor e ia agora inspeccionar.
A sua grande preocupação era o inexplicável não funcionamento do medidor de efectividade espaço-temporal, impedindo-o de viajar no espaço-tempo. Também o medidor de efectividade de tempo normal estava parado. Piorando a situação, o robot-mecânico tinha “enlouquecido” e agitando os braços metálicos dizia coisas sem nexo e sem qualquer utilidade prática.
A nave volteou e aproximou-se do vale. Numa colina que dominava toda a depressão, erguia-se o estranho Templo.
O detector iónico seguiu a nave, e o computador biológico — Guardião do Templo — melancolicamente constatou que há mais de 20 números Aleth nenhum sábio ou monge visitara o templo sem ser em estado de profunda meditação, em viagem pelo irreal e pelo fantástico.
Tangor preparou a manobra de aterragem. Verificou a aparelhagem e ficou pensativo a olhar o medidor que continuava sem funcionar. A nave poisou com um suave e quase hipnótico balanço. Saiu, depois de carregar a arma de fusão e deixar os robots-guardas em estado de alerta. Aproximou-se da escadaria do templo verificando que era imponente, de um estilo muito antigo. Mas em tal estado de conservação que parecia que o tempo não tinha feito sentir a sua acção. A meio da escadaria, uma sensação de medo fê-lo voltar-se. A algumas dezenas de metros a sua nave cintilava e o robot-guarda assobiou em sinal de que estava atento. Quase lhe deu a impressão que o robot tinha piscado o olho! Mas não, tal não era possível. Nunca tinha visto uma “coisa” daquelas piscar o olho a um ser humano. Ainda pensando nisto deu-se consigo no patamar superior. Ao pisá-lo o portão abriu-se, ao mesmo tempo que uma voz fria e sem emoção, dizia: “Sê bem vindo, humano, ao Templo onde é guardado o segredo do Tempo Efectivo de Normalidade Geral, regulado na mesma intensidade universal.
“Saberás que qualquer gesto ou acção de agressividade, ainda que intencional, te trará imediatamente a morte. Deixarás a arma à entrada ou não chegarás a dar três passos no interior do templo. Acompanhar-te-á um andróide que te vedará a visita à zona interdita. Estarei de vigia e basta que fales se pretenderes qualquer informação”.
O computador estranhou o comportamento da criatura que ali ficou parada, olhando espantado o interior escuro para além da entrada, sabendo que olhava para além do tempo…
Tangor nada disse. Deu meia volta e desceu as escadas. Sabia que estava perdido, condenado a não voltar mais voltar ao seu planeta. Os sábios do seu Sistema já tinham visitado o templo há muitos milhares de unidades de tempo, apenas espiritualmente. De outra maneira era quase impossível, mas ele estava ali! Agora sabia que tinha entrado no chamado “buraco intemporal”, que era por assim dizer a porta para um tipo de “universo paralelo”. Para entrar, uma hipótese num milhão. Para sair, talvez nenhuma… Procurar a saída para o seu Universo era pouco mais ou menos procurar uma esfera infinita, cujo centro está em todo o lado e o círculo limite em parte nenhuma!
Entrou na nave e os reactores de activação dimensional começaram a zunir. Lembrou-se dos heróis que morriam nas suas “vimanas”, na grande batalha do “Armagedon”, no longínquo planeta dos homens da Terra, dos quais falava o “Livro dos Deuses”. Lembrou-se ainda da sua companheira, afastada dele... apenas uma eternidade!
Já a nave subia no espaço azul, quando o portão do Templo se fechou. O Guardião meditava para com os seus componentes electrónicos, sem saber como elaborar o relatório do estranho acontecimento.
Tangor, 1º Oficial Graduado da Esquadrilha Temporal, acelerou a sua "vimana" na ordem do factor inverso do módulo de gravidade, com rumo ao infinito. O robot-mecânico fitava um ponto que não existia. A nave tremeu ligeiramente e o humanóide de metal, começou a cantarolar baixinho. Tangor ligou o sistema de auto-desintegração da nave, e entrou na câmara de suspensão de vida!
Lá em baixo, o Guardião tentava ainda detectar a nave que perdera já de vista. Entretanto, um robot-móvel procedia à substituição de um filtro biológico, que se decompusera. Velava assim pelo bom estado do seu Mestre e Senhor, Guardião do Templo, por todos os séculos sem fim…